sábado, 7 de novembro de 2009

Sentinela

Baco a Danae by Euphorika

Você sente meus beijos enquanto dorme? Sente meus dedos pousar sobre teu rosto e deslizar entre teus traços mouros, numa dança carinhosa e de pura proteção? Você sente meus olhos viajando em teu corpo, te cobrindo de encanto e vontade?
Eu sempre acordo antes de você. Um segundo antes que seja, meu sono se dissipa antes do teu e eu cumpro meu ritual de amor calma e prazerosamente. Eu permaneço estrategicamente a teu lado encaixando minha coxa sobre teu ventre divinamente traçado e como que para te prender numa eternidade de minutos ou horas e te dominar, sem te machucar.
Penso sobre teus caminhos e os caminhos que tua boca percorrem em palavras e beijos e penso sobre tuas lutas oníricas, tão desiguais, tão injustas pra você. E você fica mais frágil em minha mente e minhas pernas te prendem mais e meus braços te prendem mais pra te salvar. E minha boca sobrevoa tua face e teu cheiro me cobre e me impele a te cobrir também.
Eu quero ser teu anjo, teu arcanjo, tua ninfa, tua amazona. Eu quero ser o espírito que flutua sobre tua cama, brando, branco e leve para te guardar do mal. Amo-te divinamente, como as canções que nascem das grandes almas. E estou sempre longe quando estou contigo, longe de onde se deve estar.
Estamos salvos juntos sobre a cama enquanto meus olhos se abrem e os teus se fecham e quando eles se encontram numa comunhão de dizeres silenciosos, quando as palavras descansam em outros recantos.
Você me inspira poesia, poesia que de tempos em tempos transborda para ir de encontro aos teus ouvidos e quando não transborda se represa no meu corpo e te molha nas melhores madrugadas.
E o meu desejo agora é este. Que você deite sobre a cama, dispa-se inteiramente, sinta a brisa da minha alma, a gravidade e as águas do meu corpo e se entregue a meus cuidados de amor até o próximo amanhecer.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Uma noite sem Morfeu

Night Vision by Werol

Há noites em que sua mente trava uma luta que se sabe perdida contra as pálpebras. Grande audácia a delas. O que são as pálpebras diante do desejo firme e resoluto do sono? Nada! Mas há noites em que elas provam seu poder daviniano e extermina o Golias e, detalhe, sem pedra alguma!
Os olhos ficam desprotegidos e portanto atentos e é neste momento que a insônia pode ser útil. A insônia serve para ler Jean Baudrillard assassinando o assassino do real* (Imagina! Só é possível ler isso bem acordado).
A insônia serve para você virar para o outro lado da cama, “dar de cara” com aquele homem ou mulher que divide o espaço contigo, os sonos e às vezes as noites em claro também, e te dar a oportunidade de apreciar os contornos do corpo do outro, do rosto, de todos os detalhes que o valham.
Dar a oportunidade de constatar que só existe inocência total quando se dorme. É... o sono é sinônimo de inocência. Perceber isto é uma das benesses da insônia. Por outro lado, se você está sozinho, a falta do toque de Morfeu pode lhe propiciar uma sessão de amor solitário, auto-amor, fica à critério da necessidade e da criatividade.
A insônia pode ser aproveitada quando ela é casual e não patológica. Me compadeço de quem sofre com ela. Ficar acordado enquanto boa parte do mundo dorme dá uma sensação de poder. Domina-se espaços. É você, seus olhos abertos e o silêncio, terreno propício para o pensamento. Quantas teorias devem ter sido formuladas assim? Das banais até as mais interessantes.
A insônia só pode ser aproveitada por pessoas que se entendem bem sozinhas. Que sabem se encontrar na solidão. Porque não é fácil ouvir sons e palavras que nos chegam em noites assim, se não estivermos aptos a ouvir. Ela pode ser um exercício de paciência, de auto-conhecimento e porque não a preliminar do sono? Por falar nisso...vou dormir são quase cinco da manhã...
*Referência ao capítulo O Assassinato do Real do livro A Ilusão Vital de Jean Baudrillard

sábado, 27 de junho de 2009

Você e as coisas

Carta ao filósofo



The passion of man by misssnap


As coisas pra você nunca têm o mesmo sentido que têm para os outros. Elas tem outras significações. Uma pessoa é uma pessoa para mim. Para você é um mundo ou de tudo ou de nada. Um sentimento para mim deve ser avaliado, para você sentido e ,ainda assim, se tiver de ser avaliado, para você, não será nunca do mesmo modo que é para mim, as sensações serão preservadas ou ganharão dimensões outras.
Os objetos são importantes, conversam quando estão contigo, são como pessoas. E inversamente, pessoas são como objetos para você, objetos para tuas mãos e olhos, manipuláveis e apreciáveis para fins poéticos e quase nunca diretamente ligados à elas mesmas. Usar para você não tem o mesmo sentido que tem para os outros porque você sabe usar, sabe o que essa coisa toda significa e vai além.
E a paixão? A paixão tortura e mata por si só. É só deixar que ela nos comande pra ver acontecer . Pra você a paixão deve ser vivida até o último instante, como Zorba que vomita as cerejas que ele propositalmente se empanzinou. Pra você, o frio e o medo que a paixão provoca devem ser vividos plenamente. Você é a única pessoa que se entende com ela. Os outros, não. Ela chega e diz: Quero ter-te. Aponta-te um ser e vaticina os caminhos e você olha diretamente nos olhos dela, quiçá sobre ela, e diz: Eu vou. E vai. Não temes temer. Enquanto os outros correm dela, caem, se rasgam por entre as cercas que desesperadamente pulam para fugir e no final, sangram. E você, não. O sangue que sai de ti nessa vivência toda é recolhido por você e impresso no livro mais bonito e é imortalizado lá. É diferente. A relação é outra. Há gozo.
Você e as coisas. Quem é você? O que são as coisas para você? Os que são as coisas diante de você? Conheço quem é capaz de sair correndo pela madrugada só para não ter que sentir a intensidade e o peso da vida sobre as costas. Mas também conheço quem, mesmo não tendo a mesma relação que você tem com as coisas, tenta ter.









sábado, 6 de junho de 2009

Canção d'amor

Lust by Lunatics On Pogo Sticks


Eu me faço bela pra você
Redesenho meu rosto pra você
Danço contigo
E durmo pra sonhar com teu cheiro

Amor, quando você está aqui
Quem te come não é o tempo*
Nem minha boca
Tampouco meu corpo
Quem te come é minha alma

Olho pra você, um dândi
Gigante
Torno a olhar, um menino
Que cabe na palma da minha mão
E eu seguro pra não se perder

Sim, às vezes brinco de sonhar sonhos
E neles te vejo guerreiro
Altivo, inteligente e forte
A invadir meus domínios

Amor, queria apenas falar tua língua
Porque eu já sei traduzir e gosto de ouvir

E agora sinto uma dor ao pé da nuca
Porque meu terceiro olho olha e não te vê
Cadê?

Ah! Se eu pudesse
Se tivesse muitos poderes
Se eu pudesse escolher
Agora mesmo, agora
Com a urgência de quem sabe que a vida passa logo
Eu iria te ver.



* Referência a um verso do Poema-tempo de Viviane Mosé

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Os 11 mais: Pensamentos que não vão mudar o mundo (Parte 1)

I think, I'm stuck II by Brrb


Eu penso que planejar o futuro a longo prazo atrapalha ações imediatas.

Eu penso que as pessoas não mudam. Das duas, uma: ou alguém é péssimo observador ou então a pessoa observada não teve a oportunidade de demonstrar certos traços da sua personalidade até então ocultos e aparentemente inexistentes.

Eu penso que Deus é um só pra todo o mundo. As pessoas é que têm mania de querer colocar nome em tudo e dividir em categorias.

E em relação aos ateus e agnósticos, eu penso que Deus os protege e deve achar muito engraçado quando em uma situação extrema de medo, eles O chamam.

Eu penso que falar sozinho não é loucura. Na verdade é a melhor maneira de ajustar contas consigo mesmo.

Eu desconfio de bondade excessiva, de pessoas 100 por cento bondosas. Ou há um sentimento de culpa muito forte embutido na alma ou uma grande mentira.

Jesus Cristo disse que devemos perdoar 70 vezes 7, não sei se estamos preparados para tanto, por isso eu penso de uma forma mais simples, que nós merecemos ,pelo menos, duas chances ao invés de uma como é costumeiro. Afinal, precisamos primeiramente passar pela fase do choque para podermos nos habituar às novas condições.

Eu concordo com o Frejat quando ele diz que a gente precisa "ter pelo menos um amigo em quem confiar e que a gente precisa 'dizer' ao dinheiro quem é mesmo o dono de quem".

Eu penso que Filósofo não é “feito” em academia. Filósofo nasce Filósofo.

Eu penso que a maioria das mulheres tem medo de assumir a própria inteligência.

E eu penso que a beleza está nos olhos de quem quer ver.


P.S: Qualquer semelhança com algum aforismo nietzschiano pode não ser mera coincidência.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tudo o que eu posso

To reinvent bird bones by vampire zombie

Agora não consigo escrever... só viver...

sábado, 2 de maio de 2009

Sonho de menina feia

Defeat the Emotions by Monislawa


Era realmente curiosa a expressão que Iara fazia sempre que estava em frente a televisão. Era uma mistura de encantamento e satisfação. Novelas, filmes e até comerciais de xampu a deixavam em um estado de súbito enlevo. Havia sempre um sorriso que escapava pelo canto da boca e um jeito de olhar que ninguém entendia. Afinal, o que Iara via? Era quase sempre assim, ela ia pra frente da TV, lhe dedicava algumas horas, depois trancafiava-se no quarto, ligava o som e lá ficava até a hora do jantar. Não se ouvia, sequer, uma palavra sair da sua boca durante sua clausura e ninguém a interrompia, a não ser que fosse algo realmente urgente pra mãe dela, como comprar pão ou tirar o gato de cima da mesa. Aí sim, Iara saia apressada para cumprir sua missão nada secreta e voltar logo para seu misterioso estado de enlevação. Era quase sempre assim. O irmão implicava com o jeito dela. Dizia que Iara era estranha e deveria ser consultada por um médico. Coisa de irmão mais velho. A mãe não sabia se era preocupação ou implicância dele e deixava passar.
No auge dos 18 anos, beleza exótica, olhos grandes, brilhantes e boca pequena, pele branca e cabelo muito preto. Realmente Iara era muito bonita. Não foi sempre bonita, tornou-se. Namorou pouco. Do primeiro beijo nem lembrava direito, somente que tinha sido com um menino feio da rua quando era criança. Cena engraçada, dois meninos feios se beijando escondido para matar a curiosidade e não ficar por fora das descobertas juvenis. Pra quê lembrar disso? Ela ri e enterra a lembrança. Depois disso ela começa um ritual que segue desde que se descobriu bonita. Iara vai até o espelho. Examina os traços do rosto, abre a gaveta e tira um pequeno estojo de maquiagem. Então começa a se desenhar. Pinta os olhos e a boca. Põe os longos brincos que ela comprou, mas que nunca usou em público, veste uma saia preta e uma blusa um pouco decotada, calça os sapatos altos da mãe e solta os cabelos. Pronto. Iara está pronta para começar mais um capítulo de comercial de xampu. Mais um sonho de menina bonita que ainda conserva uma alma de menina feia.